31 março 2019

Dica de filme Netflix – O Preço do Amanhã


O Preço do Amanhã (In Time) é uma ficção científica com crítica social e econômica. O diretor Andrew Niccol tem no currículo os memoráveis Gattaca e Show de Truman e no elenco temos os convincentes Justin Timberlake como Will Salas e Amanda Seyfried como Sylvia Weis. Destaque para o ótimo trabalho de Cillian Murphy como Raymond Leo que é o agente do tempo.

Uma espécie de detetive com cinquenta anos de experiência. Cillian entrega perfeitamente o personagem. Desde o olhar até o gestual nos dá a nítida impressão de estarmos vendo um experiente, inteligente e convencido detetive investigativo mesmo com a aparência de vinte e cinco anos do talentoso ator.

A trama de O Preço do Amanhã mostra um futuro distópico no qual a humanidade venceu a morte e todos os seres humanos param de envelhecer aos vinte e cinco anos. Nesse momento começa a contar um relógio regressivo que, se zerado, causa a morte. Assim, todos trabalham por tempo e não dinheiro. O relógio pode ser carregado com mais tempo e o tempo é a moeda corrente. As contas são pagas com tempo. Um café custa quatro minutos, por exemplo.

A analogia com nosso sistema atual está nas diferenças sociais. Enquanto os pobres estão sempre correndo e dormem pouco, pois tem pouco tempo, os ricos são calmos e lentos em seus atos, pois tem centenas de anos para gastar.

O Preço do Amanhã começa com uma introdução à situação do tempo que substitui o dinheiro e é mostrada a rotina de Will que vive com sua mãe Rachel Salas interpretada pela sempre impressionantemente linda Olivia Wilde. Preocupados em ganhar tempo para pagar o aluguel, ele acorda bem cedo pois não dorme muito e ela lhe dá quinze minutos para o almoço. É a mãe dando vinte reais para o lanche e a cena serve para vermos como se dá a troca de tempo entre as pessoas.

O dia de Will segue com a jornada de trabalho e a correria normal de quem não pode perder um minuto sequer. Vemos o que significa a expressão “tempo é dinheiro” da forma mais cruel quando uma personagem vai pegar o ônibus pois a caminhada leva duas horas e a passagem aumentou para duas horas e ela só tem uma hora e meia em seu relógio. Ela implora e o motorista diz: é melhor você começar a correr.

Seguindo a trama de O Preço do Amanhã, sem dar spoilers, Will vai conseguir dois séculos em seu relógio. Com todo esse tempo, ele pode sair do gueto onde vive e ir para a parte rica da cidade. É exatamente como um morador de uma favela da baixada indo para o Leblon. Nesse momento O Preço do Amanhã mostra a diferença entre os ricos e pobres. O comportamento apressado de Will deixa claro para todos que ele não pertence àquele lugar. Ele tem dificuldade em andar em vez de correr, por exemplo.

Em O Preço do Amanhã Sylvia Weis é o interesse amoroso de Will. Ela o observa de longe reparando em seus maneirismos desconhecidos para ela, que é muito rica e muito inocente em relação ao mundo. Ela nunca viu um pobre e fica intrigada e curiosa até o momento em que os dois se conhecem. Nessa hora ela está com um homem que joga pôquer com Will e este diz a ele: “você está intrigado sobre minha relação com ela (Sylvia), se ela é minha mãe, irmã, esposa ou filha. Ela é minha filha.”

O Preço do Amanhã tem ótimos momentos para abordar temas importantes. Tem o discurso interessante do rico com mais de cem anos que está cansado de viver e procura uma forma de morrer. Ele justifica seu desgosto pela vida pois ela não tem sentido – não tem propósito. Lamentavelmente esse tema não é devidamente explorado em O Preço do Amanhã.

Na relação entre Will e Sylvia entendemos as diferenças econômico-sociais de nossa realidade refletidas na revolta de Will para com o sistema e na incredulidade de Sylvia diante da realidade do gueto ao qual ela é apresentada. Ela tem uma praia nos fundos de sua casa, mas não entra no mar para não morrer afogada. Apesar de ter séculos em seu relógio ela é criada para não se arriscar nunca. Está sempre com seguranças e isso a faz questionar sua rotina. Ela anseia pela emoção do risco que é desconhecido para ela. Assim, de certa forma, ambos tem o que o outro quer. Ele vive cada dia sem a certeza do dia seguinte e ela tem todo o tempo do mundo e nada para fazer.

É impossível dissociar a realidade fictícia de O Preço do Amanhã da nossa realidade capitalista e consumista.

Tecnicamente falando, O Preço do Amanhã tem problemas de roteiro, sobretudo no terceiro ato. As atuações estão acima da média, exceto Cillian Murphy que está excepcional. A direção não alcança o nível de Gattaca, mas não chega a prejudicar a experiência. Fotografia distingue bem o gueto da cidade rica e trilha sonora está a contento. Não temos a abundância de cgi, costumeira em produções do gênero, o que é incomum e muito bem vindo.

O Preço do Amanhã é uma crítica ao nosso sistema consumista onde poucos ricos são sustentados por massas de pobres aos quais são negadas algumas condições básicas de sustento e qualidade de vida. Aborda conceitos filosóficos sobre o sentido da vida, inocência, tragédia, ignorância acerca do mundo, trabalho e recompensa e iniquidade humana.

O Preço do Amanhã é um filme que nos faz pensar sobre nós mesmos e nosso papel no mundo. Ótimo filme. Recomendo.

Autor: Alex Arruda Mendes

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